“Não podemos salvar a democracia sem confiança no julgamento dos cidadãos”

Vocês sabem o que é Democracia Líquida?
5 de novembro de 2018
Prorrogadas as sanções contra Venezuela por comprometer a democracia
19 de novembro de 2018

“Não podemos salvar a democracia sem confiança no julgamento dos cidadãos”

O novo livro de Madeleine Albright, ‘Fascismo – um Alerta”, tem tido um enorme sucesso nos Estados Unidos e na Europa. A autora foi durante quatro anos secretaria de Estado do presidente dos EUA Bill Clinton, depois de ter sido sua embaixadora junto das Nações Unidas. Foi a primeira mulher a ocupar este cargo.

O seu livro, como ela própria diz, é um grito de alerta nestes tempos dominados pelo ódio. Ela escreve sobre ascensão ao poder de líderes como Mussolini, Hitler, Chávez, Putin, Kim Jong-un e Donald Trump.

Em entrevista publicada pelo site www.publico.pt, de Lisboa, Madeleine diz que seu livro é um grito de alerta nestes tempos dominados pelo ódio. Abaixo, transcrevemos parte da entrevista

Podemos comparar o século XX com o que se está ocorrendo hoje no mundo?

Muita coisa mudou nos últimos 80 anos, as redes de proteção social são mais fortes. No entanto, um olhar pelo mundo mostra-nos que não eliminamos as forças que podem produzir o fascismo, incluindo o nacionalismo, e a vontade de usar a violência para impor os privilégios de alguns à custa de outros. Nas palavras do sobrevivente italiano do Holocausto Primo Levi, “todas as eras têm o seu fascismo”.

Hoje, a maioria de norte-americanos manifesta-se contra a imigração e contra os refugiados. O mesmo se passa na Europa. É um sintoma dos perigos para os quais adverte no seu livro?

Sim. Uma das principais causas das perturbações na Europa e noutros continentes é a chegada de um número recorde de migrantes e refugiados e a reação das pessoas perante uma questão muito complexa e emocional. É um desafio que só pode ser abordado com racionalidade, equilíbrio e através de um debate razoável. Os países têm o direito de controlar as suas fronteiras, mas as pessoas têm o direito a ser tratadas com decência e respeito. Infelizmente, a questão está a ser explorada por alguns políticos, que tentam fazer avançar os seus próprios interesses encorajando-nos a agir, não através do bom senso, mas a partir do medo e do ódio.

Nas democracias maduras, as pessoas estão descrentes dos partidos tradicionais. Deixaram de confiar neles, pelo menos tanto como confiavam anteriormente. É este o maior problema que as democracias enfrentam hoje?

Sim. Hoje em dia e por várias razões, é difícil aos governos satisfazer as expectativas da opinião pública. Por isso, muitos cidadãos sentem-se insatisfeitos com os partidos tradicionais e dão o seu voto a alternativas que são novas ou extremas. O que, muitas vezes, conduz a governos que acabam por ser ainda piores.

A Democracia está a desaparecer como Grande Ideia? O regime chinês pode aparecer como alternativa para os países do mundo em desenvolvimento?

A democracia sempre enfrentou desafios. Há dez anos estávamos a braços com o mal causado pela violência no Iraque, que alguns atribuíam a uma tentativa pouca avisada de impor a democracia num país. Continuo a acreditar que a maioria das pessoas quer que os seus países avancem para o objetivo democrático da liberdade e da justiça para todos. O modelo chinês é atrativo para os líderes autocráticos que querem preservar o seu próprio poder, mas não tanto para os partidos da oposição ou para os participantes da sociedade civil.

A democracia exige racionalidade e pode ser até um pouco aborrecida. O populismo e o nacionalismo apelam às emoções e podem galvanizar as pessoas oferecendo-lhes ideias simples e “culpados” para os seus problemas. Em momentos em que tudo tende a parecer incerto e questionável, como se pode ir contra estas ideias tão básicas como perigosas?

Para mim, o processo democrático, através do qual as pessoas com ideias muito diferentes são capazes de atingir um terreno comum através do processo de debate e de compromisso, é absolutamente entusiasmante. Em contraste, não há nada de menos excitante do que a conformidade rígida imposta por um ditador – temos de ter fé na capacidade das pessoas para resistir às promessas vazias e para as mentiras perigosas dos demagogos. Não podemos salvar a democracia sem confiança no julgamento dos cidadãos democráticos.

Nos EUA e também na Europa há hoje uma discussão sobre os perigos das chamadas políticas identitárias. Não apenas do “nós contra os outros”. Mas também sobre as minorias – afro-americanos, hispânicos, mulheres, homossexuais etc. Alguns autores dizem que que este tipo de políticas quebra o laço de cidadania que une toda a gente. Como vê este debate?

Esse debate é disparatado. Todos nós temos atributos individuais que nos ajudam a definir e que nos podem dar um sentimento especial de afinidade com aqueles que partilham as nossas características. Trata-se de um fator que unifica e não que divide. Também temos um papel a desempenhar nas comunidades e nas nossas nações. Isso é também um fator unificador. O gênio da democracia representativa é que reconhece estas realidades e cria os meios para resolver conflitos de forma livre e pacífica ao longo do tempo. Nada disto impedirá as pessoas de ter discussões, mas isso é normal. Os problemas começam quando deixamos de ter a liberdade para argumentar.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *